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Entre histórias e oportunidades: como o Neabi marca trajetórias na universidade

Raissa Albano Ocilene Nascimento não esquece a sensação de entrar na sala de aula e não se ver ali. Entre tantos rostos, eram poucos (ou quase nenhum) que se pareciam com o dela. “Era como se eu fo...

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Publicado por: AgeCom Unesc

em 23 de junho de 2026

Tempo de leitura: 5 minutos.

Entre histórias e oportunidades: como o Neabi marca trajetórias na universidade

Raissa Albano

Ocilene Nascimento não esquece a sensação de entrar na sala de aula e não se ver ali. Entre tantos rostos, eram poucos (ou quase nenhum) que se pareciam com o dela. “Era como se eu fosse o único pontinho preto”, lembra.

Natural da Bahia, onde cresceu em um contexto mais diverso, o contraste se tornou ainda mais evidente após a mudança para Santa Catarina. O sotaque de Salvador, que carrega com orgulho, reforça sua identidade, mas também marca sua diferença em um espaço onde a presença negra ainda é minoritária.

A entrada na universidade veio acompanhada de expectativas, mas também de incertezas sobre pertencimento. Foi nesse cenário que o contato com o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (Neabi) e com o Programa de Equidade Racial começou a transformar sua trajetória acadêmica. “Foi no núcleo que eu comecei a me sentir parte da universidade”, afirma.

Entre acesso e permanência

Criado em 2006 e reativado em 2014, o Neabi atua na Unesc com ações voltadas ao ensino, à pesquisa e à extensão, promovendo debates, formação e iniciativas sobre relações étnico-raciais. O núcleo também tem papel importante na formulação de políticas institucionais, como o Programa de Bolsas de Equidade Racial.

Segundo a coordenadora do núcleo, Normélia Ondina Lalau de Farias, a produção de dados é fundamental para sustentar essas ações. “Não dá para se trabalhar com o racismo sem pesquisa científica. É a partir dos dados que conseguimos pensar em mudanças dentro da universidade”, afirma.

Ela explica que o trabalho do núcleo vai além das atividades acadêmicas e impacta diretamente a cultura institucional. “A gente não atua só com os estudantes que fazem parte do programa. O Neabi promove uma mudança no olhar da universidade como um todo, especialmente por meio do letramento racial”, destaca.

De acordo com Normélia, esse processo tem reflexos concretos na criação de políticas de inclusão. “Foi a partir dessas discussões que surgiram iniciativas como o Programa de Bolsas de Equidade Racial. São ações que não só ampliam o acesso, mas ajudam a garantir que esses estudantes permaneçam na universidade”, explica.

Ainda assim, ela reconhece que os desafios persistem. “O acesso aumentou, mas a permanência ainda é um ponto de atenção. Não basta entrar na universidade, é preciso ter condições de continuar”, pontua.

Atualmente, a Unesc conta com cerca de 400 estudantes negros, pardos e indígenas. Apesar do avanço, os números refletem um cenário nacional ainda desigual.

Dados do IBGE mostram que, apesar dos avanços, o acesso ao ensino superior ainda é desigual no Brasil. Entre jovens brancos de 18 a 24 anos, cerca de 36% cursam ou já concluíram a graduação. Já entre pretos e pardos, esse percentual cai para 18%, praticamente a metade.

Além disso, embora pessoas pretas e pardas representem aproximadamente 56% da população brasileira, elas correspondem a cerca de 38% dos estudantes universitários. Os números evidenciam que o acesso ao ensino superior no país ainda reflete desigualdades históricas.

Mais do que garantir o ingresso, o desafio está na permanência.

Diferentes trajetórias, um ponto em comum

Se para Ocilene o contato com o núcleo representou uma virada ao longo da graduação, para Lineane Fernandes de Almeida, de 40 anos, acadêmica da 7ª fase de Nutrição, o Neabi esteve presente desde o início. “Eu já entrei na faculdade pelo Programa de Equidade Racial, então sempre estive vinculada”, conta.

Lineane destaca o acolhimento recebido no ingresso e a importância do núcleo para sua permanência. “Se o Neabi não existisse, talvez eu não estaria na universidade”, afirma.

Apesar disso, sua trajetória também evidencia um ponto importante: a presença de políticas institucionais não elimina, por si só, as desigualdades históricas, mas pode reduzir barreiras e ampliar possibilidades.

O trabalho desenvolvido pelo Neabi contribui para mudanças dentro da universidade, especialmente no que diz respeito ao letramento racial e à criação de políticas de inclusão. 

Ao final da graduação, Ocilene resume o significado do núcleo a partir da própria experiência: “É um espaço de acolhimento, pertencimento e fortalecimento”.

A trajetória também indica que iniciativas como o Neabi estão relacionadas ao acesso e à permanência de estudantes no ensino superior, ao mesmo tempo em que apontam para a continuidade de desafios estruturais.

Entre diferentes histórias, observa-se um movimento comum: o de estudantes que passam a ocupar espaços na universidade ao longo da graduação.

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