Romper o ciclo da violência doméstica requer mais do que punição. Exige reflexão, responsabilização e mudança de padrões culturais que sustentam práticas de controle e agressão. A partir dessa comp...
Publicado por: Marciano Bortolin
em 10 de março de 2026
Tempo de leitura: 7 minutos.
Romper o ciclo da violência doméstica requer mais do que punição. Exige reflexão, responsabilização e mudança de padrões culturais que sustentam práticas de controle e agressão. A partir dessa compreensão, a Unesc, por meio do curso de Psicologia, estrutura o projeto “E agora, José?! Grupos reflexivos para homens autores de violência”, voltado a apenados enquadrados na Lei Maria da Penha no Presídio Regional de Criciúma.
A proposta estrutura encontros semanais com homens condenados por violência doméstica e familiar, com o objetivo de estimular processos de autorreflexão, reconhecer o impacto das condutas praticadas e prevenir a reincidência. A participação é voluntária, mediante triagem e acolhimento individual, e os ciclos contarão com dez a doze reuniões, conduzidas por estagiários do curso de Psicologia, sob supervisão docente e acompanhamento técnico da equipe psicossocial da unidade prisional.
Idealizadora do projeto, a professora Camila Maffioleti Cavaler sustenta que o enfrentamento à violência contra a mulher requer abordagem mais ampla do que o modelo exclusivamente punitivo. “Não enfrentamos a violência apenas com o encarceramento. É preciso criar espaços de responsabilização e reflexão que desnaturalizem padrões de masculinidade associados ao controle e à agressividade”, afirma a docente que apresentou a iniciativa a representantes de diversos segmentos da Justiça.
“O grupo não representa benefício, mas instrumento de intervenção psicossocial estruturada. O objetivo é promover a responsabilização pelos atos cometidos e discutir masculinidades, relações de gênero e prevenção da reincidência. Trabalhamos para que esses homens compreendam o impacto das violências e possam reconstruir trajetórias sem repetir ciclos”, acrescenta.
O projeto encontra respaldo na Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) e na Lei nº 13.984/2020, que autoriza o encaminhamento de agressores para programas de recuperação psicossocial. Também dialoga com a Recomendação nº 124/2022 do Conselho Nacional de Justiça, que orienta tribunais a instituírem programas de responsabilização. Em âmbito municipal, converge com a Lei nº 7.868/2021, que estrutura a política local de enfrentamento à violência doméstica.
“Trata-se de uma ação objetiva e necessária no campo da Psicologia Social, pois promove responsabilização, reflexão e prevenção da reincidência, com impacto direto na proteção das famílias e da comunidade. Os encontros qualificam a intervenção e a formação prática dos estudantes. Quando Universidade e sistema prisional constroem juntos uma ação com método, ética e supervisão, qualificamos o território. Isso é política pública na prática”, afirma o coordenador Geral dos Estágios em Psicologia Social da Unesc, Zolnei Vargas Córdova.
Com previsão de um grupo por semestre, o projeto “E agora, José?!” busca consolidar-se como estratégia permanente de prevenção, articulando ciência, prática supervisionada e compromisso institucional diante de um dos desafios mais sensíveis do tecido social contemporâneo.
“Para os homens que cumprem pena por violência doméstica, o grupo oferece um espaço estruturado para assumir responsabilidades e desenvolver competências socioemocionais. Para nossos acadêmicos, representa uma experiência essencial, que amplia a compreensão ética e técnica e prepara para atuar em contextos complexos”, afirma a coordenadora do curso de Psicologia, Rosimeri Vieira.
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