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Documentário cinebiográfico sobre a trajetória de Derlei Catarina De Luca é lançado na Unesc

Professores, estudantes da Unesc e comunidade externa acompanharam, na noite desta sexta-feira (22/5), uma história marcada por coragem, memória e resistência. O lançamento de “Derlei: Desafiando o...

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Publicado por: AgeCom Unesc

em 22 de maio de 2026

Tempo de leitura: 11 minutos.

Documentário cinebiográfico sobre a trajetória de Derlei Catarina De Luca é lançado na Unesc

Professores, estudantes da Unesc e comunidade externa acompanharam, na noite desta sexta-feira (22/5), uma história marcada por coragem, memória e resistência. O lançamento de “Derlei: Desafiando o Silêncio”, documentário cinebiográfico sobre a trajetória de Derlei Catarina De Luca, emocionou o público ao transformar vivências pessoais em reflexão coletiva.

Produzido pela Mozaiko Filmes, o longa vai além da reconstrução histórica e conduz o espectador por uma jornada profunda sobre memória, luta e humanidade. Ao longo de 1h49min, a produção percorre 17 cidades no Brasil, Chile, Panamá e Cuba, revisitando os caminhos que marcaram a vida da içarense. No Brasil, as gravações passaram por Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. No exterior, a equipe esteve em Santiago, no Chile; Cidade do Panamá e Las Tablas; encerrando as filmagens em Havana, Cuba.

Com direção, edição e fotografia dos professores pesquisadores da Unesc Alcides Goularti Filho, do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Socioeconômico (PPGDS) e roteiro e produção de Giani Rabelo que é do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade, o documentário constrói um retrato que equilibra densidade e delicadeza. A narrativa reúne entrevistas com familiares e companheiros de militância, além de trechos do livro “No Corpo e na Alma”, escrito pela própria Derlei.

“Derlei era uma pessoa solidária, humana, com compaixão pelo outro. Ao revisitar os lugares por onde ela passou, como museus, cidades, espaços de memória, a equipe buscou não apenas reconstruir acontecimentos, mas restituir atmosferas. Cada detalhe foi pensado de forma minuciosa, ratificando a ideia de que, como já defendia Glauber Rocha, não existe neutralidade no cinema”, comenta o diretor.

Conforme ele, esse material é resultado de um longo trabalho. “Nada no filme está por acaso, tudo foi pensado minuciosamente. Para nós, foi um grande aprendizado, tanto do ponto de vista técnico quanto da convivência e da experiência de filmar em diferentes cidades e países, especialmente em Cuba”, acrescenta Goularti Filho.

A reitora em exercício da Unesc, Gisele Silveira Coelho Lopes, destacou a importância de preservar a memória, fortalecer a democracia e valorizar a ciência como caminho de transformação social. “Fica uma mensagem muito forte de que nunca podemos desistir de um país livre, de um país cada vez mais humano e justo. Nunca podemos desistir da democracia e daquilo que ela representa para as próximas gerações. Precisamos manter viva a esperança, acreditar nas pessoas, nos direitos humanos e na liberdade que temos hoje. Também é essencial acreditar na educação e na ciência. É justamente ela que transforma realidades, que preserva memórias e que permite que histórias como essa sejam conhecidas e refletidas pela sociedade. Por isso, destaco e agradeço o trabalho desses pesquisadores, que protagonizam um trabalho tão importante para a popularização da ciência.. Vocês fazem uma pesquisa que vai muito além da produção acadêmica, ela tem impacto social, humano e histórico”, observou Gisele.

Conforme Gisele, escrever já é uma arte, mas conseguir transmitir emoção, memória e reflexão por meio daquilo que se escreve é algo ainda maior. “Muito obrigada por continuarem esse legado, por manterem viva a memória e por seguirem contando histórias tão necessárias e inspiradoras”, acrescentou Gisele.

Impactos

Durante 10 anos, 10 meses e 29 dias, ela enfrentou clandestinidade, prisão, tortura e exílio. Contudo, o filme não se ancora apenas nos impactos da ditadura militar, ao focar a dimensão humana que tem como protagonista uma mulher que escrevia poemas, cultivava afetos, sentia saudade e encontrava beleza em pequenos gestos e lugares.

“Contar a história de uma mulher que passou pelo que ela passou sempre esteve no nosso horizonte. Ela representa muitas outras mulheres que viveram a tortura. E o fato de ela ter seguido, de ter continuado militando, nos mobiliza”, comenta Giani, ao revelar que a escolha por Derlei não é recente.

Uma construção estética da memória, inspirada por referências que vão do cinema soviético de Mikhail Kalatozov, ao cinema italiano pós-neorrealista de Valério Zurlini e no Cinema Novo, o longa aposta em uma estética que valoriza o enquadramento, o silêncio e a contemplação. A fotografia simétrica, as cores vibrantes e as sombras presentes configuram uma linguagem que dialoga com a própria experiência de vida da personagem. Ao fundo, a filosofia existencialista sustenta a condução do filme e evidencia que o passado molda, mas é o presente que se ressignifica e projeta futuro.

O processo de produção, que se estendeu por dois anos, mobilizou mais de 30 profissionais e equipes locais em diferentes países. Em cada cidade, um novo encontro, uma nova adaptação e um novo desafio. No Panamá, por exemplo, a equipe enfrentou o desafio de viabilizar filmagens em uma pequena cidade do interior, em meio às incertezas logísticas. Ainda assim, o percurso seguiu, com registros realizados no cemitério de Las Tablas, no interior do país.

O filho de Derlei, José Paulo De Luca Ramos, esteve no lançamento e falou sobre a importância do documentário. “Acho que o documentário tem uma diferença muito grande dos livros de história, em que a gente apenas lê sobre o que aconteceu. No filme, existem relatos, sentimentos e memórias vividas por pessoas reais. Isso faz com que o público se sinta muito próximo daquela realidade. Não digo isso apenas por ser filho dela, mas porque percebi que quem assistiu também se emocionou e se conectou profundamente com a história”, disse.

“Vou ver mil vezes e chorar mil vezes. É um documentário muito forte, muito emocionante, porque retrata de forma sensível o que foi aquele período da nossa história. Mais do que contar fatos, ele deixa uma mensagem importante para que aquilo nunca mais aconteça. Ao mesmo tempo, mostra a força da minha mãe. Apesar da tortura, do sofrimento e de todas as dificuldades que enfrentou, ela conseguiu sobreviver, seguir em frente e encontrar felicidade em muitos momentos da vida”, complementou o filho.

Uma história que permanece

Nascida em 1946, em Içara, Derlei Catarina De Luca construiu uma trajetória marcada por educação, militância e defesa dos direitos humanos. Professora desde muito jovem, ampliou sua atuação ao ingressar na universidade, onde intensificou o engajamento político. A partir de 1968, com o endurecimento do regime militar, sua vida passa a ser conduzida pela clandestinidade.

A prisão, em 1969, inaugura um dos capítulos mais duros de sua história. Submetida à tortura, Derlei carregou marcas físicas e psicológicas que a acompanharam por toda a vida. Ainda assim, a trajetória não se encerrou na dor. Após o exílio, vivido entre Chile, Panamá e Cuba, retornou ao Brasil com a anistia, em 1979, e retomou a atuação pública.

“O que a Derlei fazia, pelo que ela lutava, fizemos com muita facilidade atualmente. Será que a Derlei representava um perigo para a sociedade brasileira? O que ela fez de tão grave? Eram perguntas que fizemos para os entrevistados”, relata Alcides.

Ele recorda que a proposta sempre foi imprimir beleza ao documentário, não uma beleza superficial, mas aquela que nasce do olhar e da experiência. “Ela percorreu todos os lugares retratados e que agora ganham novos significados na narrativa. Ao retornar a esses espaços, o filme reconstrói memórias e revela as camadas de sentido que ela enxergava no mundo”.

Na Alesc, onde permaneceu até 2017, sustentou um trabalho contínuo voltado à memória, verdade e justiça. Participou da Comissão da Verdade e se envolveu na busca por desaparecidos políticos. Ela faleceu em 18 de novembro de 2017. “Ela nunca se colocou como vítima. Reconhecia o sofrimento, mas ressignificava a experiência e seguia”, observou Giani.

Memórias

Derlei Catarina De Luca construiu uma trajetória marcada por coragem, resistência e compromisso inabalável com a justiça. Perseguida pela ditadura militar, presa e brutalmente torturada, enfrentou o exílio e a dor profunda de permanecer afastada do próprio filho por anos, sem jamais renunciar aos seus ideais. Sua vida foi atravessada pela repressão, pela clandestinidade e pelas perdas impostas por um regime autoritário, mas também pela firmeza de quem transformou o sofrimento em luta. Ao retornar ao Brasil com a anistia, retomou sua atuação com ainda mais determinação, engajando-se na defesa da democratização do país, na preservação da memória e na busca pela verdade e reparação para as vítimas da ditadura.

Dedicou-se intensamente à localização dos corpos de presos políticos e teve papel ativo na Comissão Nacional da Verdade, reafirmando, até o fim de sua vida, seu compromisso com os direitos humanos. Professora, militante e testemunha viva de um dos períodos mais sombrios da história brasileira, Derlei foi, acima de tudo, uma mulher que jamais desistiu de lutar. Ela foi muito importante na Comissão da Verdade. Mesmo depois de ficar livre, seguiu lutando e é reconhecida em diversos locais.

Reflexão

Alcides conta ainda que a trajetória de Derlei é uma verdadeira declaração de amor à democracia e à justiça social, valores que ela carregava com clareza, traduzidos em gestos de solidariedade, humanidade e profunda compaixão pelo próximo. “Histórias como a dela nos lembram da importância de valorizar o que é nosso, sem esperar que grandes plataformas de streaming contem aquilo que nasce e pulsa em nossa própria região”, refletiu o diretor.

“Esperamos que esta cinebiografia faça com que nós, enquanto sociedade, brasileira e regional, refletimos sobre o quão nefasta foi a ditadura civil militar neste país e quantas pessoa perderam a vida muito jovens, mas o quanto foi importante a atuação de tantas “Derleis”, pessoas que se envolveram e abriram mão de tudo. É pensar sobre o quão danoso e desnecessário foi a ditadura no nosso país. Não precisávamos ter passado por isso. Precisamos falar disso para que não aconteça mais. A ideia é registrar, deixar esta memória porque faz parte de nossa história e precisa ser revisitada em todos os momentos para não desaparecer. Esta geração precisa disso”, ressaltou Giani. Na próxima segunda-feira (25/5) o documentário será exibido na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc).

Texto: Daniela Savi e Marciano Bortolin/Agecom/Unesc

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