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Entre flores, crochê e arco-íris, Festa da Primavera celebra histórias no Grupo AVEnCER

Quem passou pelo Centro de Convivência da Unesc nesta quarta-feira (23/9) provavelmente percebeu que havia algo diferente por ali. O espaço estava cheio de flores, cores, laços, girassóis, crochê e...

Daniela Savi

Publicado por: Daniela Savi

em 23 de setembro de 2026

Tempo de leitura: 7 minutos.

Entre flores, crochê e arco-íris, Festa da Primavera celebra histórias no Grupo AVEnCER

Quem passou pelo Centro de Convivência da Unesc nesta quarta-feira (23/9) provavelmente percebeu que havia algo diferente por ali. O espaço estava cheio de flores, cores, laços, girassóis, crochê e sorrisos. Mas o que realmente chamou a atenção foram os chapéus. Cada um tinha um jeito, uma cor e uma história.

Eles foram confeccionados pelos participantes do Grupo AVEnCER, do Centro Especializado em Reabilitação (CER II), para a Festa da Primavera, atividade realizada para marcar a chegada da nova estação. A proposta era criar o próprio chapéu e depois desfilar com ele. Simples assim. Mas, quando os participantes começaram a entrar na passarela, ficou claro que havia muito mais do que enfeites em cada produção.

Teve chapéu com flores feitas à mão, girassóis, laços, tule, trabalhos em crochê e muitos outros detalhes. Alguns foram produzidos pelos próprios participantes. Outros tiveram a ajuda da família. E todos carregavam um pouco de quem estava usando.

A tarde também contou com um concurso para escolher o chapéu mais decorado. E quem levou o título foi Adriana Goulart Satiro, de 57 anos, moradora do bairro Boa Vista, em Criciúma. O chapéu dela tinha muitas cores, tule e um detalhe que não passou despercebido, um arco-íris.

Um arco-íris depois da tempestade

Adriana gosta de arco-íris. E talvez não exista imagem que combine tanto com a forma como ela enxerga a própria trajetória. Depois de sofrer um AVC, ela passou a frequentar o Grupo AVEnCER. Em novembro, completará dois anos desde o episódio. Hoje, fala sobre a Primavera como quem reconhece nela algo da própria vida.

“A gente passa por tempestades e depois vem o sol, a esperança. Isso nos dá ânimo e força. Somos primaveras porque vencemos”, conta.

O chapéu que ela criou para o desfile acabou traduzindo um pouco desse sentimento. Entre o tule e as cores, o arco-íris apareceu como um dos elementos que ela mais gosta. E foi justamente aquela produção cheia de vida que conquistou o primeiro lugar no concurso.

Para Adriana, porém, o prêmio parece ser apenas um detalhe diante do significado que o grupo ganhou em sua vida. “O grupo é tudo. Não quero ter alta. Eu amo a família Unesc”, afirma.

Flores feitas ponto a ponto

Se o chapéu de Adriana ganhou as cores do arco-íris, o de Maria das Graças Luiz, de 79 anos, moradora de Forquilhinha, ganhou flores feitas pelas próprias mãos.

Apaixonada por crochê, Maria produziu as pequenas flores que depois foram utilizadas na decoração do chapéu. O trabalho foi feito aos poucos, respeitando o seu ritmo. “Eu fui fazendo devagarzinho”, conta.

Fazer crochê, para ela, é também um momento de tranquilidade. “Parece que eu fico tranquila”, diz.

Maria está há seis meses no Grupo AVEnCER e conta que percebe mudanças desde que começou a participar dos encontros. Uma delas está na comunicação. Antes, segundo ela, quase não falava. Agora, sente que consegue se expressar melhor.

Ela também encontrou no grupo um espaço que passou a fazer parte da sua rotina. “Esse grupo é maravilhoso. Minha vida mudou”, afirma.

Um chapéu com gosto de pesca

Francisco Carlos Medeiros, de 70 anos, morador do bairro Brasília, em Criciúma, também levou para a passarela algo que faz parte da sua vida, a paixão pela pesca.

A ideia de confeccionar o chapéu contou com a ajuda da esposa e da nora. Juntos, pensaram nos detalhes e fizeram uma produção que tivesse a cara dele. “Eu quis retratar o que gosto no chapéu”, explica.

Francisco passou a integrar o CER depois de sofrer um AVC. Naquele período, teve dificuldades para falar e andar. O acompanhamento da equipe multiprofissional, com fisioterapia, fonoaudiologia, entre tantos outros profissionais que atendem nas Clínicas Integradas da Unesc, passou a fazer parte da sua caminhada.

Por isso, estar ali, participando do desfile e mostrando o próprio chapéu, teve um significado especial.

Um desfile de histórias

Para a coordenadora do CER II, Thatiane Vanessa Rodrigues, a Festa da Primavera permitiu enxergar um lado do processo de reabilitação que nem sempre aparece nos atendimentos do dia a dia. “Hoje, a gente não está vendo apenas um desfile de chapéus. Estamos vendo histórias, superações, vínculos e conquistas. Cada chapéu foi pensado e construído por eles, com aquilo que gostam, com aquilo que são e com as pessoas que fazem parte das suas vidas. É muito bonito perceber o quanto cada um consegue avançar e se expressar ao longo desse processo”, destaca.

Segundo ela, o Grupo AVEnCER tem justamente esse olhar para a pessoa como um todo, considerando não apenas os aspectos físicos da reabilitação, mas também os sentimentos, as relações, a autonomia e a possibilidade de construir novos caminhos. “A reabilitação não termina quando a pessoa consegue realizar um movimento ou uma atividade. Ela também passa por recuperar a confiança, a vontade de participar, de estar com o outro e de se reconhecer novamente. O AVEnCER proporciona esse espaço. É um novo recomeço dentro da própria história, respeitando o tempo, as possibilidades e a singularidade de cada participante”, afirma.

Para a fisioterapeuta do CER II, Gislaine Savaris, acompanhar a evolução dos participantes ao longo do tempo é uma das partes mais significativas do trabalho realizado no Grupo AVEnCER. Segundo ela, momentos de convivência e descontração também fazem parte desse processo, porque permitem que os pacientes percebam suas próprias conquistas e se sintam capazes de participar, criar e se expressar.

“Quando a gente acompanha esses pacientes desde o início, consegue perceber pequenas e grandes evoluções. Às vezes, uma pessoa que chegou com dificuldade para caminhar, para se comunicar ou até mesmo para participar de uma atividade, hoje está aqui, confeccionando o próprio chapéu, desfilando e interagindo com os colegas. Isso também é reabilitação. É muito importante que eles tenham esses momentos de convivência, de alegria e de troca, porque isso contribui para a autonomia, para a autoestima e para a qualidade de vida”, destaca.

Primavera para além das flores

O Grupo AVEnCER existe há três anos e é vinculado ao Centro Especializado em Reabilitação (CER II) da Unesc. Os encontros ocorrem todas terças-feiras e quartas-feiras, das 10h20 às 11h20, com acompanhamento de uma equipe multiprofissional formada por profissionais da fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional, enfermagem, nutrição, entre outras áreas.

Os participantes são pacientes vinculados ao CER e chegam ao serviço por meio de encaminhamentos das Unidades de Saúde do Sistema de Saúde Municipal.

 

 

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