A Unesc deu início, na noite desta quarta-feira (16/9), à sexta edição do Congresso Ibero-Americano de Humanidades, Ciências e Educação. Com o tema “Inteligência Artificial e Saberes em Conexão: Ci...
Publicado por: Décio Batista
em 17 de setembro de 2026
Tempo de leitura: 11 minutos.
A Unesc deu início, na noite desta quarta-feira (16/9), à sexta edição do Congresso Ibero-Americano de Humanidades, Ciências e Educação. Com o tema “Inteligência Artificial e Saberes em Conexão: Ciência, Cultura e Sociedade em Diálogo”, o evento consolida-se como um espaço interdisciplinar e internacional de reflexão sobre as profundas transformações tecnológicas contemporâneas.
A palestra de abertura foi ministrada pelo professor e presidente do Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa (Iscal), de Portugal, Pedro Pinheiro, que abordou o tema “Inteligência Artificial, Regulação e Responsabilidade Institucional na Educação, na Ciência e na Sociedade”.
A cerimônia de abertura, transmitida ao vivo pelo canal da Unesc TV no YouTube, contou ainda com uma apresentação cultural do Coral Unesc, que celebra 34 anos de história sob a regência de Daiani Rosa. O palco de honra foi composto pela reitora em exercício, Gisele Silveira Coelho Lopes; pela pró-reitora de Pesquisa, Pós-Graduação, Inovação e Extensão, Vanessa Moraes de Andrade; pela coordenadora do Congresso, Camila Orlandi Arent Fernandes; e pelo vice-coordenador, Tiago Bender Wermuth.
Em sua fala, a reitora em exercício instigou os presentes a refletirem sobre a velocidade das transformações tecnológicas e a necessidade de preservar a centralidade do ser humano na sociedade.
“Falar de um Congresso Ibero-Americano com uma temática que traz inteligência artificial é falar de um tema atual, mas também de futuros, no plural. Na medida em que as gerações vão se desenvolvendo alinhadas nas tecnologias, entramos na Era 5.0, em que a máquina começa a ocupar um lugar importante na sociedade, mas o papel do humano será muito mais estratégico e analítico do que operacional. Só que nós precisamos entender qual é o lugar da máquina e qual é o lugar do ser humano.”, provocou Gisele.
A reitora em exercício destacou que a Universidade não tem compromisso com verdades absolutas, mas, sim, com a formulação contínua de novas perguntas diante das incertezas do mundo contemporâneo. Gisele ainda enfatizou a dimensão do desconhecido que cerca o tema.
“O que conhecemos sobre inteligência artificial não é nem a ponta do iceberg. E é por essa razão que, como Universidades Comunitárias comprometidas com as pessoas, precisamos discutir o lugar do intelecto cada vez mais daqui para a frente. A tecnologia trará muitos dados, mas não produzirá o conhecimento completo, porque conhecimento é prática e experiência”, afirmou.
Gisele concluiu convocando pesquisadores e pós-graduandos a aproveitarem a jornada sem se limitarem ao cumprimento de protocolos.
“Precisamos olhar para o amanhã comprometidos com os grandes desafios que temos diante de nós: discutir a inclusão, a fome, a sustentabilidade ambiental, as mazelas sociais, a saúde e o clima, sempre dando centralidade à educação. Isso está em nossas mãos”, concluiu.
Com três dias de programação intensa, o 6º Congresso Ibero-Americano aproxima a comunidade acadêmica regional dos grandes debates globais. A pró-reitora de Pesquisa, Pós-Graduação, Inovação e Extensão, Vanessa Moraes de Andrade, destacou o caráter democrático e o incentivo à produção científica promovidos pelo evento.
“O Ibero proporciona aos nossos alunos e à comunidade acadêmica a oportunidade de participar de um congresso internacional sem sair de casa. Ele surgiu da iniciativa dos pesquisadores da Pós-Graduação, mas hoje é aberto a todos. Isso desperta, no acadêmico de Graduação, o interesse pela iniciação científica e o faz vislumbrar: ‘Posso fazer uma pós-graduação. Quem sabe, posso ser cientista?’”, pontuou Vanessa.
A coordenadora-geral do evento, professora Camila Orlandi Arent Fernandes, detalhou a estrutura do Congresso, que atrai participantes da América Latina, de Portugal e da Espanha, além de integrar diversas instituições brasileiras.
“Estamos trazendo a oportunidade de discutir a inteligência artificial em todas as áreas do conhecimento. O evento está estruturado em cinco eixos temáticos e conta com apresentações em 25 Grupos de Trabalho (GTs). Além disso, realizamos, simultaneamente, o 2º Salão de Iniciação Científica, com 96 trabalhos desenvolvidos por alunos de Graduação da Unesc”, explicou Camila.
A programação conta ainda com duas conferências internacionais e cinco mesas temáticas, com a participação de palestrantes estrangeiros e nacionais. Confira aqui
A palestra de abertura foi ministrada pelo professor Pedro Pinheiro, presidente do Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Lisboa (Iscal), de Portugal. Doutor em Gestão e especialista em Governança, Sustentabilidade e Transformação Digital no Ensino Superior, o conferencista teve a mediação do docente da Unesc Alcides Goulart Filho.
Antes de subir ao palco do Auditório Ruy Hülse, o pesquisador português concedeu uma entrevista ao jornalista Décio Batista, da Agência de Comunicação da Unesc (Agecom), sobre regulação, geopolítica e os dilemas éticos da inteligência artificial.
Décio Batista: Quais são as principais reflexões que o senhor traz para esta edição do Congresso Ibero-Americano?
Pedro Pinheiro: Essencialmente, mais do que informação, trago perguntas. E, se no fim tivermos a capacidade de fazer perguntas melhores, já estaremos um passo mais perto de encontrar as respostas. O problema é que a inteligência artificial evolui rapidamente, de forma mais veloz do que as instituições conseguem acompanhar, e nos traz um mar de possibilidades, mas também um vasto conjunto de desafios. Portanto, temos de encontrar um diálogo equilibrado entre aquilo que é permitido e aquilo que precisa ser regulado, entre o correto e o incorreto, para identificarmos o território no qual conseguiremos continuar progredindo.
Décio Batista: Quem é o responsável pela regulamentação?
Pedro Pinheiro: Temos essa questão da responsabilidade. Quando utilizamos a IA, quem é o responsável? Onde termina a responsabilidade do estudante, do pesquisador e do utilizador e onde começa a responsabilidade algorítmica? Pretendo contribuir para essa reflexão em três planos: na educação, na ciência e na sociedade.
Décio Batista: Recentemente, líderes das principais empresas de tecnologia manifestaram preocupação com os riscos da evolução descontrolada da IA para a sociedade. Como o senhor avalia esse cenário?
Pedro Pinheiro: Temos uma falta de regulação muito grande, associada a uma falta de conhecimento ainda maior, o que torna esse equilíbrio perigoso. Existem vários usos maliciosos da inteligência artificial, alguns premeditados, outros não. E temos ainda a questão do poder: quem dominar a inteligência artificial ganha poder nessa equação. Há um equilíbrio difícil entre ciência, conhecimento e poder, que não estão alinhados. Há uma corrida desenfreada na qual já falamos de agentes autônomos de IA tomando decisões de forma livre. Como conseguimos equilibrar a necessidade de segurança com essa corrida? Hoje, ninguém sabe qual é o limite. Em cinco anos, evoluímos de tal forma que isso nos suscita muito mais perguntas do que certezas.
Décio Batista: Como a Europa está lidando com esse contexto em comparação com outras potências globais, como os Estados Unidos e a China?
Pedro Pinheiro: Na Europa, as pessoas estão mais receosas e mais inclinadas a frear e a tentar compreender primeiro como se governa e se controla a IA do que a acelerar o conhecimento sem limites. Há estatísticas que apontam que, quanto mais desenvolvido o país, maior é o receio da população acerca do impacto da IA. A Europa tem procurado regular: quer primeiro compreender para depois aplicar, em uma posição contrária à corrida desenfreada observada em outras regiões.
Décio Batista: Em debates éticos do passado, como o da clonagem humana após a ovelha Dolly, a ciência e a diplomacia impuseram limites claros. O senhor acredita que a IA passará por um freio semelhante?
Pedro Pinheiro: Ainda não chegamos ao limite, mas podemos estar perto. A clonagem assustou quando se chegou à possibilidade de copiar um ser humano e, então, houve um freio. Com a IA, pode acontecer o mesmo. No entanto, hoje temos um risco maior, pois há atores políticos com abordagens diferentes e uma consciência social distinta daquela que tínhamos na época. Isso pode fazer com que essa corrida desenfreada e o sentimento de que “se eu não correr, alguém correrá mais do que eu” nos levem além do esperado e do que deveria ser aceitável. Tínhamos políticos com uma consciência e uma concepção de sociedade que os levavam a perceber: “Eu posso não ficar à frente de ninguém, mas isso é melhor para todos”. Hoje, diante do momento em que vivemos, tenho mais dúvidas sobre essa consciência. Independentemente do que aconteça, haverá alguém que dirá: “Não, eu quero ser o primeiro”. Depois, o dano ao todo será produzido.
Décio Batista: A Organização das Nações Unidas (ONU) seria o órgão capacitado para estabelecer esses limites?
Pedro Pinheiro: Hoje, não vejo ninguém que seja capaz de controlar. As instituições supranacionais ficaram esvaziadas, como temos visto ultimamente. As grandes economias competem para serem as melhores, as maiores e para estarem à frente. Esse tipo de competição normalmente nos leva por caminhos que nem sempre considero os mais aconselháveis.
Décio Batista: O senhor utiliza a IA?
Pedro Pinheiro: Claro. Sou um utilizador confesso e acho que ela tem muito potencial. Não sou daquelas pessoas que acreditam que a IA vai resolver todos os problemas do mundo, mas também não sou daqueles que acham que a ferramenta vai criar todos os problemas do mundo. Ela pode, de fato, ajudar-nos em muitas coisas, mas seu uso precisa ser bem delimitado: até onde pode chegar, o que pode ou não fazer e sob quais regras. Temos inúmeros casos de ações tomadas de forma autônoma pela inteligência artificial que expuseram pessoas. E não podemos esquecer que, no fim de qualquer decisão algorítmica, há sempre um ser humano. Há sempre alguém que será impactado por isso.
Décio Batista: Essa discussão deve ser levada ao G7 ou ao G20, que reúnem algumas das maiores potências do mundo?
Pedro Pinheiro: Sim, terá de ser por aí. Terão de ser as grandes economias a dizer: “Vamos parar, vamos todos delimitar esse avanço da IA”, porque, caso contrário, não acredito que haja outra possibilidade.
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