Texto: Sabrina da Silva Ugioni Chegando ao bloco da biblioteca, eu avistei ali naquela esquina, a famosa sala com as paredes de vidro, que mostravam em seu interior toda sorte de papelaria e livros...
Publicado por: AgeCom Unesc
em 2 de junho de 2026
Tempo de leitura: 10 minutos.
Chegando ao bloco da biblioteca, eu avistei ali naquela esquina, a famosa sala com as paredes de vidro, que mostravam em seu interior toda sorte de papelaria e livros. Ao entrar, o cheiro de papel novo mistura-se ao aroma adocicado de borracha e ao leve toque metálico dos jalecos pendurados. Uma sinfonia silenciosa de cores vibra nas prateleiras: o azul vibrante das canetas Tilibra, o rosa choque das tesouras Cis, o verde esperança das capas de cadernos. Ao fundo, o zumbido constante das conversas universitárias e o tilintar sutil de chaveiros personalizados tecem a trilha sonora do ambiente.
Neste refúgio de conhecimento e criatividade na Unesc, encontramos Maurício Geraldo, um homem cujo sorriso caloroso e olhar vibrante revelam uma vida dedicada aos livros e às histórias que eles contam. Para Maurício, um livro nunca foi apenas papel e tinta. Ele fala do objeto com a reverência de quem degusta um vinho fino ou ouve o solo de um violino. Natural de Blumenau, mas criciumense de coração e torcedor do 'Tigre', o livreiro de 59 anos é uma figura onipresente no Bloco da Biblioteca. Por trás dos óculos e do sorriso de quem se diz 'insuportavelmente feliz' pelas manhãs, esconde-se um curador que já percorreu o estado em 42 feiras por ano e que, mesmo após a pandemia redesenhar seu negócio, ainda mantém em casa uma biblioteca maior que a da própria loja. Maurício é o elo vivo entre o conhecimento acadêmico e a vida que pulsa fora dos livros.
Essa história teve início há 32 anos atrás, “em Junho completa 33 anos”, diz Maurício, que conta de forma carinhosa e amorosa sobre a história da Unilivros e a sua própria história na Unesc.
Maurício veio para Criciúma à convite da Fucri, (nesse tempo ainda não se chamava Unesc), ele conta: “A gente veio pra cá à convite da Fucri, pois aqui tinha uma Sulina, uma livraria de Porto Alegre que existia no shopping Della Giustina, e eles mantinham aqui um posto de atendimento, aí eles saíram e a Unesc queria alguém com experiência.
Como a minha família atende a FURB, eles foram lá e perguntaram se a gente não tinha interesse em vir pra cá.”
Maurício estava casado há 9 meses quando veio pra Criciúma montar a Unilivros na Unesc. A livraria da FURB era da família da sua esposa. A história de Maurício com os livros começou 4 anos antes de se mudar para o sul do estado.
Maurício fazia administração e juntamente com um amigo de contábeis e uma amiga que cursava letras, eles chegaram à conclusão de que o bairro em que moravam, precisava de uma livraria. Então montaram a Casa Cultural, e eles cometeram todos os erros possíveis que alguém que não conhece o segmento, poderia cometer. Depois de dois anos ele foi trabalhar na editora Moderna, era divulgador. Por causa desse trabalho ele acabou conhecendo a sua esposa. E nas suas andanças como divulgador também já havia passado por Criciúma. Ele trazia os livros para os professores conhecerem, nas escolas públicas e particulares.
Aqui, a Unilivros se tornou sua casa e a Unesc, seu palco. Ele viu a universidade crescer, de 1.200 para mais de 10.000 alunos, e com ela, a livraria também se transformou. De um espaço dedicado exclusivamente aos livros, ela evoluiu para um tripé de produtos: papelaria, jalecos e livros. No início ele não vendia nenhum produto de papelaria, mas aí a necessidade pediu que começasse a vender caneta BIC e ter uma estantezinha de papelaria, só coisa básica mesmo. Hoje a livraria é 90% papelaria e 10% livro. Uma mudança impulsionada pela necessidade do mercado e pela digitalização do conteúdo, mas que não diminuiu a essência da Unilivros como um lugar de sonhos e conhecimento. Algo emblemático para Maurício é quando ele atende pessoas que já passaram pela Unesc, e hoje trazem seus filhos que estão iniciando a faculdade para comprar ali. “É uma outra geração. A pessoa se formou aqui e agora entra com o filho pra comprar um jaleco para o laboratório, pois o filho vai fazer medicina, e no balcão o cliente fala que me conhece, que eu já estava aqui quando ele também fazia faculdade, e aí a gente começa a juntar as histórias.”
Maurício parou de vender livros técnicos, atualmente os mais vendidos são romances, auto ajuda e não ficção, seguindo as listas nacionais de best-sellers. Mas o estilo de leitura que ganhou o coração de Maurício, são os romances históricos.
Maurício era um livreiro ativo, chegando a participar de 42 eventos por ano, incluindo feiras estaduais e a promoção de feiras em cidades vizinhas de Criciúma, com o objetivo de incentivar a leitura. “Eu participava da ANL (Associação Nacional de Livrarias) e da CCL (Câmara Catarinense do Livro), se tinha feira em Jaraguá eu ia, em Chapecó eu ia,
fazia o estado inteiro.” Além de livreiro nas grandes feiras, Maurício começou a produzir pequenas feiras pela região. “Eu ia nas feiras grandes e comecei a perceber, poxa, por que Cocal do Sul Não pode ter uma feira do livro?”
E assim começou a fazer toda a região Cocal do Sul, Nova Veneza, Orleans, Morro da Fumaça, Içara.
A pandemia foi um “divisor de águas”, revelando a não essencialidade dos livros para muitos. Maurício foi forçado a se reinventar, priorizando o que o cliente queria e não o que ele desejava vender. “Na pandemia, primeiro a gente achou que ia morrer né? Depois eu pensei assim, Meu Deus, quem é que vai precisar de livros no fim do mundo?”.
Então Maurício teve uma triste constatação: “Aí eu descobri que meu produto era uma porcaria. Pensei, como vou sobreviver?” Eram muitos pensamentos em uma mente angustiada. Precisou se reajustar para nunca mais passar o que passou naquele momento.
Assim, a loja diminuiu de tamanho e sua equipe que já teve nove funcionários e três unidades, hoje, como ele mesmo diz, toca o barco com a esposa, somente eles. Não é mais possível participar das feiras, pois não tem a equipe de apoio. O negócio também se adaptou com um tripé de vendas, papelaria (1o lugar), Jalecos (2o lugar) e livros (3o lugar). Maurício observa que a transformação da livraria para incluir outros produtos é uma tendência mundial, pois “a livraria pura não consegue mais se manter.”
Anedotas e Emoções: A história mais inusitada foi a de uma estagiária que não sabia o que era uma "resma" de papel, e o cliente ficou indignado com a moça que trabalhava na papelaria e não sabia o que era uma resma. Assim ela ganhou o apelido de "resminha", e hoje mesmo sendo uma professora e não mais a estagiária da loja, quando Maurício a encontra ainda chama pelo seu apelido carinhoso. Maurício também se emociona com o atendimento a alunos com necessidades especiais. Sempre que entra alguém especial na loja o atendimento também é especial, vai até a porta recebe, pergunta o que precisa, para pessoas com deficiência visual, cadeirantes, aquelas com movimentos limitados.
Pai de Camile e da Carol, adora cerveja e churrasco, lê muito (sua biblioteca em casa é maior que a da loja) e é "insuportavelmente feliz" pela manhã. Recentemente, voltou a jogar basquete. “agora jogo basquete nas segundas à
noite, achei um grupo de velhinhos que joga, estou com eles.” Ele sonha em se aposentar, mas continuar ativo. É um amante dos animais (resgatou 7 filhotes de cachorro) e se não os doasse ficaria com todos.
Participou por anos de um quadro na Rádio Eldorado chamado"Dicas de Leitura " para incentivar a leitura, sorteando livros. A palavra do livreiro: Maurício considera o livro um "produto nobre", comparando-o à produção de vinho ou à música de um violino, com uma aura de cultura e conhecimento. “Eu coloco o livro no mesmo patamar de quem toca um violino ou produz um vinho, tem muita coisa por trás, não é só o produto. E a mesma coisa acontece com a livraria, ela é um lugar de sonhos, um lugar de conhecimento”.
Nova formação:Trabalhar na UNESC o motivou a cursar Marketing. Pedido mais inusitado da livraria: Um cliente pediu uma "Bíblia de Jerusalém autêntica", escrita em hebraico, um pedido impossível de ser atendido localmente, especialmente antes da era da internet para importação. Sem Arrependimentos: Maurício nunca se arrependeu de ter vindo para Criciúma, cidade onde suas filhas nasceram e cresceram, e pela qual sente grande apreço. Ele se considera torcedor do Criciúma Esporte Clube desde o início da sua chegada à cidade.
A Unilivros é mais que uma loja, é um reflexo da alma de Maurício, um lugar onde a paixão pelos livros se mistura à alegria de viver. E enquanto houver leitores em busca de histórias e sonhadores em busca de inspiração, Maurício Geraldo, o guardião de sonhos da Unesc, estará lá, pronto para recebê-los com um sorriso caloroso e um livro na mão.
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