Reitoria

“Ser professor é falar de futuros”, afirma reitora em exercício da Unesc

No Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro, a reitora em exercício da Unesc, Gisele Silveira Coelho Lopes, defendeu uma educação que transforma informação em conhecimento e aproxima o conteúdo...

Marciano Bortolin

Publicado por: Marciano Bortolin

em 16 de outubro de 2026

Tempo de leitura: 26 minutos.

“Ser professor é falar de futuros”, afirma reitora em exercício da Unesc

No Dia do Professor, celebrado em 15 de outubro, a reitora em exercício da Unesc, Gisele Silveira Coelho Lopes, defendeu uma educação que transforma informação em conhecimento e aproxima o conteúdo acadêmico da vida real. Em entrevista ao Programa do Avesso, da Rádio Som Maior, ela falou sobre a trajetória na docência, as mudanças na relação com os estudantes, o uso da tecnologia em sala de aula e a importância de experiências práticas e reflexivas na formação dos novos profissionais. Também alertou para a redução do interesse pela carreira docente e a falta de profissionais, o que pode comprometer a educação nas próximas décadas.

Professora há duas décadas, Gisele começou a lecionar depois de uma trajetória profissional ligada à indústria e à formação técnica. A experiência ajudou a construir uma concepção de ensino baseada na troca, na curiosidade e na participação dos estudantes. Para ela, o papel do professor vai além de transmitir conteúdos, mas criar condições para que cada estudante desenvolva pensamento crítico, autonomia e capacidade de propor soluções para desafios complexos.

Confira a entrevista:

Programa do Avesso: Você imaginava ser professora quando era criança?

Gisele Silveira Coelho Lopes: Não. Quando era criança, imaginava ser advogada. Queria vestir a toga e estar nos tribunais. É uma profissão muito respeitada. Tenho um advogado em casa, que é meu esposo, mas a vida apresentou outros destinos. Tentei fazer vestibular para Direito quatro vezes e não consegui passar.

Em 1999, a Unesc lançou o curso de Administração - Comércio Exterior. Aquilo chamou a minha atenção. Sempre fui curiosa e pensei: por que não? Fiz Administração, mas ser professora também não estava nos meus planos. Trabalhava na indústria, na área de planejamento e controle da produção, e me realizava profissionalmente.

Quando terminei a graduação, um professor me convidou para dar aulas no Senai, no curso técnico de Vestuário. Eu ensinava planejamento e controle da produção, justamente o que fazia todos os dias na indústria e foi amor à primeira vista. Eu ensinava aquilo que conhecia na prática e me realizei muito nessa experiência.

Depois da graduação e da pós-graduação, encontrei esse mesmo professor em um corredor da Unesc. Ele perguntou o que eu estava fazendo da vida e contei que trabalhava na indústria e dava aulas no Senai. Então, ele me perguntou se gostaria de lecionar na Unesc.

A resposta foi imediata. Eu queria. Ele avisou que a aula seria na segunda-feira, e estávamos na sexta-feira. Era uma substituição de uma professora em licença-maternidade, em uma disciplina de Legislação Aduaneira. O conteúdo era complexo, cheio de códigos e normas. Passei o fim de semana inteiro estudando para preparar a aula.

Programa do Avesso: Você sempre foi movida a desafios?

Gisele: Muito. Quando alguém me apresenta algo complexo, vou atrás e procuro resolver. Gosto quando alguém diz que não é possível fazer alguma coisa, porque isso me provoca a buscar uma solução. Vou encontrar um jeito.

Por isso, costumo dizer que a profissão me escolheu. Não fui eu que a escolhi. Fui me identificando com a docência ao longo do caminho.

Comecei a dar aulas no curso técnico aos 25 anos e entrei na graduação aos 26. Era muito jovem e encontrava estudantes de 50 ou 60 anos, muitos, mais velhos que eu. Também tive a oportunidade de lecionar para colegas que ainda não haviam concluído a graduação. Eu estudava com aquelas pessoas e, depois, voltava à sala de aula para ensinar justamente as disciplinas que ainda precisavam concluir.

Foi um grande choque de realidade. Naquele momento, era necessário assumir uma posição de muita responsabilidade, mas também de humildade. O professor não está na sala de aula para competir com o estudante.

Quando terminei a substituição, foi aberto um processo seletivo na Unesc. Participei de uma seleção com análise de currículo, banca examinadora e uma aula para avaliação. Uma das primeiras perguntas foi como eu lidaria com pessoas mais experientes do que eu em sala de aula.

Respondi que lidaria da mesma maneira como lido com qualquer pessoa. A relação entre professor e estudante precisa ser horizontal, não vertical. Enxergo o professor como mediador, não como alguém que detém todo o poder. É quem inspira, constrói junto e, diante de uma pergunta para a qual não tem resposta naquele momento, reconhece isso e se compromete a trazer a informação na aula seguinte.

Quando o professor assume essa postura, conquista a confiança do estudante. Fui aprovada naquele processo seletivo e estou há 26 anos na Unesc como estudante e 20 anos como professora.

Já lecionei para muitos estudantes e, atualmente, também tenho a experiência de atuar no Mestrado em Gestão da Saúde. É maravilhoso olhar para trás e perceber como a caminhada nos constrói.

Programa do Avesso: Você continua em sala de aula?

Gisele: Sim. Entrar em sala de aula é esquecer que existe uma vida lá fora. Nós entramos em outra dimensão. Quando trabalho determinado conteúdo com os estudantes, revivo aquele conhecimento naquele momento. O tempo passa tão rápido que, quando percebemos, já se passaram duas ou três horas em um processo de construção e reflexão conjunta.

Ser professor é assumir o compromisso de transformar vidas por aquilo em que acreditamos. Não precisamos falar muito. Precisamos mostrar ao estudante que aquele conteúdo pode fazer sentido na vida dele.

O professor não é alguém que simplesmente enche o quadro de informações e acredita que as pessoas aprenderão a partir daquilo. O professor conecta. Faz as relações necessárias para que o estudante perceba o sentido daquele conhecimento para a própria vida e para o futuro.

Quando nos percebemos como mediadores do conhecimento e possibilitamos que o estudante saia de uma condição passiva para uma condição ativa, exercitando a capacidade de pensar, criamos oportunidades de transformação.

Nem tudo o que dizemos será absorvido imediatamente. Entretanto, exemplos, atitudes e gestos podem marcar a vida de um estudante de maneira permanente. Recentemente, vivi uma experiência que representa muito bem isso. Uma estudante para quem dei aula há 12 anos atrás entrou em contato comigo pelo Facebook. Eu nem me lembrava mais dela. Ela já não morava em Criciúma e escreveu que estava recordando um exemplo apresentado durante uma aula.

Naquela ocasião, eu havia dito que talvez o exemplo não fizesse sentido naquele momento, mas poderia fazer no futuro. Depois de todos aqueles anos, ela me procurou para contar que finalmente havia compreendido o significado daquilo e precisava registrar que eu tinha feito diferença na vida dela.

Muitas vezes, o professor não tem noção do que acontecerá na vida de um estudante ao longo da existência. O docente participa de uma parte da trajetória, mas não acompanha necessariamente tudo o que vem depois.

Se fizéssemos um registro dos professores que marcaram as nossas vidas, provavelmente passaríamos horas lembrando de cada um. Muitos deles nem imaginam o quanto foram importantes. Carregamos um pouco de cada professor que passou pela nossa história.

Por isso, cada aula que preparo também me faz lembrar de experiências e ensinamentos que recebi de outros professores.

Programa do Avesso: Antigamente, havia uma percepção de maior respeito pela figura do professor. Esse movimento continua existindo? O docente precisa compreender que o estudante mudou para conseguir estabelecer uma conexão?

Gisele: Entendo que continuamos sendo seres humanos. O que mudou foi o contexto. As novas tecnologias tornaram a informação muito mais rápida e acessível. Antigamente, não tínhamos os equipamentos disponíveis hoje, e esperávamos muito mais da figura do professor para compartilhar aquilo que havia aprendido primeiro.

Existia uma cultura de obediência, de cima para baixo. Isso não significa que o estudante aprendia mais ou menos, mas era a maneira como as relações estavam estabelecidas.

Quando penso nos professores que mais me marcaram, lembro daqueles que tinham empatia para me enxergar em sala de aula. Nem sempre precisavam passar horas falando de maneira eloquente sobre determinado conteúdo. Simplesmente percebiam que eu estava ali, com as minhas limitações, e entendiam que talvez eu não tirasse nota dez, mas poderia alcançar um oito à minha maneira.

O professor de hoje continua sendo aquele que se importa com o estudante, especialmente com quem chega à sala de aula cercado por informações e tecnologias. Qualquer palavra dita em aula pode levar o estudante a consultar rapidamente uma informação. O desafio está em ocupar esse espaço e mostrar que ter acesso à informação não significa necessariamente construir conhecimento.

O professor precisa se importar com o estudante e estabelecer, por meio do diálogo, o sentido daquele conhecimento para a vida dele. Outro desafio é alcançar o estudante que fala pouco e interage menos. O excesso de telas também contribuiu para mudanças no comportamento, e o docente precisa encontrar maneiras de estabelecer essa conexão.

Além disso, existem diferenças importantes entre os estudantes de uma mesma turma. Alguns chegam com uma formação mais técnica e uma preparação anterior mais consistente. Outros tiveram menos oportunidades de desenvolver determinados conhecimentos. São diferentes níveis de aprendizagem que precisam ser considerados.

Isso não significa que precisamos personalizar absolutamente tudo para cada estudante. O desafio é construir dinâmicas e metodologias que possibilitem a aprendizagem de diferentes perfis. O professor tem um conteúdo programático a cumprir, mas precisa incluir no planejamento metodologias que façam o estudante pensar. Quando olhamos para o mundo do trabalho, percebemos que um dos grandes diferenciais em um processo seletivo é a capacidade de apresentar soluções e proposições para problemas complexos.

Se o estudante apenas decorar um conteúdo, terá memorizado uma informação. Isso não significa que tenha aprendido de verdade. A questão é descobrir como fazer com que ele compreenda aquilo que estamos ensinando. É aí que entra o talento do professor. Ensinar também é uma arte.

Programa do Avesso: Como fazer o estudante aprender em um cenário no qual a tecnologia oferece respostas cada vez mais rápidas?

Gisele: Precisamos despertar a curiosidade. Caso contrário, tudo fica muito rápido e superficial. O estudante pode até resolver um problema, mas talvez não compreenda como chegou àquela resposta, para que ela serve ou por que aquele caminho funciona.

O professor precisa estabelecer sentidos para a aprendizagem. Quando começo uma unidade de aprendizagem, preciso entender o que o estudante deve aprender. A partir disso, estabeleço com a turma os objetivos e os compromissos daquele percurso.

A conversa muda quando o estudante compreende o que precisa aprender e por quê. Deixo de me preocupar apenas com o horário de encerramento da aula e passo a pensar no caminho necessário para que a aprendizagem aconteça.

Esse é um dos grandes desafios da docência. Muitas vezes, a figura do professor começou a ser desvalorizada pela própria sociedade. Antigamente, quando a escola chamava os pais, o estudante sabia que teria de responder por aquilo em casa. Havia uma relação de respeito pela autoridade do professor. Hoje, em algumas situações, vemos pais questionando o docente por ter cobrado determinado conteúdo ou exigido uma atividade.

Precisamos refletir sobre a responsabilidade que recai sobre o professor. Primeiro, é necessário olhar para a turma como um todo. Depois, pensar em uma didática que favoreça a aprendizagem e construir o caminho para que ela aconteça.

O estudante muitas vezes quer a resposta no mesmo dia, mas precisa compreender que existe um processo. O imediatismo precisa ser superado na aprendizagem. Quando recebemos algo pronto, podemos até apresentar a resposta, mas, se alguém pedir uma explicação sobre o raciocínio utilizado, talvez não saibamos explicar. O professor precisa construir esse caminho de aprendizagem.

Por isso, costumo dizer que a vida do professor não termina quando a aula acaba. É necessário reconhecer a importância desse profissional como agente de transformação pela educação. Também precisamos entender que o desempenho de uma aula depende de muitos fatores. Se três professores preparassem e ministrassem o mesmo conteúdo para a mesma turma, em momentos diferentes, certamente teríamos experiências e resultados distintos.

A expectativa do estudante nem sempre corresponde ao olhar de quem ensina. O professor enxerga o que precisa ser aprendido e o caminho necessário para alcançar esse conhecimento. Isso não acontece em um estalar de dedos, em um clique ou ao pressionar a tecla Enter.

O que diferencia o processo de ensino e aprendizagem não são apenas as tecnologias disponíveis, mas a capacidade do professor mediar aquilo que precisa ser aprendido.

Programa do Avesso: Quais são as qualidades indispensáveis para um professor, independentemente do perfil ou da área de atuação?

Gisele: Primeiro, precisa inspirar. Para alcançar um estudante, é necessário despertar a curiosidade. Como vou fazer com que alguém se interesse por aquilo em que acredito se nem eu mesma estou convencida da importância do que preciso ensinar?

O educador Rubem Alves dizia que o professor é aquele que produz espantos, que provoca aquela inquietação capaz de despertar a curiosidade. Precisamos fazer o estudante perguntar por que deve aprender determinado conteúdo e qual é o sentido daquele conhecimento para a vida dele.

Outro ponto é fazer o estudante ser autor e protagonista. Estamos acostumados com o sistema tradicional, no qual o professor é visto como aquele que sabe. Entretanto, o aluno já chega com conhecimentos adquiridos ao longo da vida.

Precisamos desenvolver nele o compromisso de protagonizar projetos, participar, pertencer e compartilhar aquilo em que acredita. Cabe ao professor estabelecer conexões entre os conhecimentos que o estudante já possui e aquilo que ainda precisa aprender.

Também é necessário utilizar a tecnologia com propósito. Não faz sentido levar a turma ao laboratório de informática apenas porque os estudantes precisam estar conectados. Precisamos perguntar qual é o objetivo daquela tecnologia e como ela contribuirá para a aprendizagem.

Tecnologia não significa necessariamente computador, celular ou lousa. Uma metodologia também pode ser uma tecnologia utilizada para levar o estudante a aprender. O importante é que exista um propósito para o recurso ou o caminho escolhido.

Outro aspecto fundamental é a construção de vínculos. Quando o professor se importa com o estudante, percebe os diferentes perfis presentes na sala de aula e reconhece as diferenças de aprendizagem, consegue preparar experiências mais adequadas à turma.

Alguns estudantes aprendem melhor ouvindo, outros precisam colocar a mão na massa e há aqueles que gostam de escrever. Compreender essas diferenças ajuda a preparar aulas capazes de alcançar múltiplos perfis.

Não existe uma receita de bolo para ser professor. Buscar uma fórmula única para a aprendizagem pode ser perigoso. O professor é aquele que provoca experiências duradouras no estudante, inspira pela própria liderança e consegue marcar uma vida.

Programa do Avesso: Como colocar essa concepção de aprendizagem em prática?

Gisele: Tive uma experiência muito marcante com uma disciplina de Consultoria Empresarial, há aproximadamente 15 anos. A disciplina tinha processo avaliativo, mas eu estava pensando em uma metodologia que não dependesse de uma prova tradicional.

Na época, apresentei a proposta ao colegiado do curso. Alguns colegas questionaram como seria possível ministrar uma disciplina daquela natureza sem uma prova. A ementa foi aprovada, mas eu ainda precisava encontrar o caminho para ensinar os estudantes a realizar uma consultoria empresarial.

A ideia surgiu durante um banho. Fiquei pensando que o semestre, na prática, não acontece necessariamente em seis meses, mas em aproximadamente 90 dias de atividades. Então, por que não organizar uma metodologia diferente, com um período dedicado ao conteúdo e outro à experiência prática?

Comecei a escrever no box do banheiro, que estava embaçado, a ideia de um plano de 60 dias. Quando saí do banho, peguei um bloco de notas e registrei tudo o que havia pensado.

A proposta era trabalhar durante 30 dias os conteúdos necessários para alinhar e nivelar os conhecimentos dos estudantes sobre Administração. Depois, eles teriam 60 dias para realizar consultorias diretamente com empresários.

A Administração é uma formação em que o laboratório também é a própria vida. Precisava criar uma oportunidade para que os estudantes experimentassem a realidade profissional durante a graduação.

Em 2013, peguei o carro com apoio de dois bolsistas e percorremos a região da Grande Santa Luzia, em Criciúma, visitando pequenas empresas. Passamos por lojas, marcenarias, padarias e outros estabelecimentos, explicando a proposta e perguntando se aceitariam receber uma consultoria empresarial.

Visitamos 60 microempresas, e 15 aceitaram participar. Organizei uma reunião com os empresários, expliquei que os consultores seriam estudantes da universidade e apresentei a proposta de uma espécie de clínica de gestão, com uma experiência real de consultoria. Eles aceitaram.

Depois, organizei o processo metodológico e comecei a preparar os estudantes. No primeiro dia de aula, disse que, a partir daquele momento, eles não seriam apenas estudantes daquela disciplina. Seriam consultores acadêmicos.

A reação foi de surpresa. Eles não sabiam exatamente o que estava por vir. Expliquei que receberiam o nome da empresa de cada dupla e teriam um período para pesquisar o negócio, conhecer suas características e levantar informações, sem entrar em contato inicialmente com o empresário.

Durante os 30 primeiros dias, trabalhei as possibilidades, preparei a turma e procurei estimular a curiosidade. Os estudantes estavam ansiosos, porque havia uma missão real a cumprir.

Também deixei claro que estaria ao lado deles como mentora. O objetivo era construir a experiência em conjunto, dando suporte para que pudessem desenvolver o trabalho.

No dia do primeiro encontro com os empresários, organizamos a sala em ilhas e preparamos um ambiente diferente. Os empresários chegaram, e os estudantes estavam alinhados, com planilhas e materiais preparados para realizar os diagnósticos.

Lembro daquele dia como se fosse hoje. Eram 22h, e a aula ainda não havia terminado. Por volta das 22h30min, os empresários foram embora, mas os estudantes continuaram na sala, cheios de dúvidas sobre como desenvolver as próximas etapas.

Criei grupos de WhatsApp para acompanhar o trabalho, e a aula passou a continuar de segunda a segunda. Havia uma missão a cumprir, e os estudantes estavam envolvidos com a experiência. Acredito que aprenderam muito mais porque conseguiram dar sentido ao conhecimento. A disciplina já não está mais sob minha responsabilidade, mas outros professores do curso continuam utilizando a mesma metodologia.

Essa experiência mostra o que acontece quando encontramos uma maneira de despertar o interesse do estudante por aquilo que precisa ser aprendido.

Programa do Avesso: Como essa concepção aparece atualmente na formação oferecida pela Unesc?

Gisele: Na Unesc, trabalhamos com a formação pela experiência, uma proposta que valoriza aquilo que toca o estudante e permite que ele construa o próprio conhecimento durante o processo de aprendizagem.

Essa perspectiva se aproxima das reflexões do autor Jorge Larrosa sobre a experiência. Aprender não é apenas ouvir falar de algo ou conhecer uma experiência vivida por outra pessoa. É necessário vivenciar, sentir e construir sentidos a partir daquilo que acontece conosco.

Na formação pela experiência, o estudante coloca autoria no conhecimento construído ao longo do percurso formativo. O professor estabelece os sentidos e cria condições para que essa aprendizagem aconteça, mas o estudante também participa ativamente da construção do saber.

Temos trabalhado muito com experiências que conectam o estudante à comunidade. O exemplo da Consultoria Empresarial representa uma prática de curricularização da extensão, na qual o estudante entra em contato direto com a realidade e desenvolve atividades relacionadas à formação.

Ele não precisa esperar a conclusão do curso para começar a experimentar situações próprias da profissão. A Universidade pode proporcionar experiências reais durante o processo formativo, com acompanhamento e orientação.

Isso acontece também nas clínicas integradas de saúde, nas quais estudantes participam dos atendimentos em diferentes áreas, como Odontologia, Fisioterapia e Enfermagem, sempre com a supervisão necessária.

O mesmo princípio pode ser aplicado aos negócios, às engenharias e à educação. A experiência não se resume a um estágio. É parte da própria formação. A educação evoluiu, e a tendência é que cada vez mais professores precisem se reinventar e compreender que educar significa construir experiências capazes de favorecer a aprendizagem.

O estudante chega à educação básica ou ao ensino superior querendo ser estimulado. Diante das tecnologias disponíveis, muitas informações já chegam prontas. O jovem e o adulto precisam ser desafiados a se tornarem autores do próprio conhecimento. Pensamento crítico envolve autoria e capacidade de perceber que determinada situação pode ser melhor aproveitada ou resolvida de outra maneira.

O Fórum Econômico Mundial já apontava, desde 2020, já sinalizava a necessidade de desenvolver competências críticas, analíticas e propositivas nos estudantes. A pandemia acelerou transformações que já estavam em curso, e o mundo do trabalho passou a exigir profissionais capazes de pensar, ampliar o olhar e propor soluções para os desafios da realidade.

Aprender pela experiência exige dedicação tanto do estudante quanto do professor. Precisamos acreditar nessa proposta e estimular a sociedade a reconhecer a importância da educação.

Programa do Avesso: Qual é o principal alerta para o futuro da educação?

Gisele: Precisamos falar sobre a redução do interesse pela profissão docente. Há projeções preocupantes sobre a falta de professores nas próximas décadas. As estimativas que mencionei apontam para um déficit de 44 milhões de professores no mundo até 2030. Para a América Latina e o Caribe, a projeção é de 3,2 milhões de profissionais a menos. No Brasil, a estimativa apresentada para 2040 é de uma falta de 235 mil professores da educação básica.

São números que precisam provocar reflexão. Muitas pessoas podem deixar de se interessar pela profissão, e isso terá consequências para as gerações atuais e futuras. A Unesc é uma Instituição responsável pela formação de professores na região, mas enfrentamos dificuldades para preencher turmas nas licenciaturas. O curso de Geografia foi fechado por falta de estudantes. Hoje, não temos mais essa formação em funcionamento na universidade.

Nos cursos de licenciatura, ainda existem vagas disponíveis. A universidade oferece subsídios institucionais que possibilitam a formação gratuita, mas, mesmo assim, não conseguimos preencher todas as vagas. Esse cenário precisa ser analisado com atenção. Não se trata de desanimar quem está na educação, mas de alertar para um problema que pode se agravar.

Também observamos dificuldades em outras áreas. Nas engenharias, há uma redução do interesse dos estudantes do ensino médio. Uma das questões que precisamos considerar é a busca por respostas prontas, em detrimento do desenvolvimento do raciocínio crítico, analítico e matemático.

A vida exige raciocínio. Precisamos compreender problemas, avaliar alternativas e encontrar soluções. Não podemos nos afastar dessas competências porque a tecnologia oferece respostas imediatas.

É necessário valorizar os professores como profissionais que ajudam a construir futuros. Sem professor, não somos nada. Se hoje estou onde estou, foi porque tive professores que contribuíram para a minha formação. O mesmo acontece com cada pessoa que teve a oportunidade de estudar.

Programa do Avesso: Que mensagem você gostaria de deixar aos professores neste dia dedicado à profissão?

Gisele: Desejo a todos os professores da universidade e da região um dia repleto de significados, em que possam recordar o legado deixado na vida dos estudantes que passaram pelas salas de aula.

Esse legado não se limita aos alunos de hoje. Envolve todas as pessoas que passaram pela trajetória de cada professor. Uma vez professor, você sempre será professor. É possível deixar a carreira e seguir outro caminho profissional, mas um dia você encontrará um antigo estudante que o chamará de professor. Esse vínculo permanece.

O professor é eternizado em nossas vidas. Os docentes que já partiram continuam vivos na minha memória, e, quando me recordo de determinados acontecimentos, lembro das experiências e dos ensinamentos que me proporcionaram.

Quero lembrar especialmente de duas professoras que marcaram a minha trajetória. A professora Rosimari Duarte, que continua na Unesc e é uma grande mulher, uma inspiração para mim, e a professora Luciane Bisognin Ceretta, que foi minha orientadora de Trabalho de Conclusão de Curso.

A professora Luciane também me permitiu voltar a trabalhar ao lado dela, e hoje somos parceiras em uma missão muito bonita, na qual assumimos juntas o compromisso com a Universidade. Ela continua sendo minha professora.

A vida passa, os cabelos brancos começam a aparecer, mas as experiências da jornada permanecem. O professor marca as nossas vidas, muitas vezes sem ter a dimensão do impacto que provocou. Deixo um beijo às professoras Rosimari e Luciane e a todos os professores que fizeram parte da minha história.

A todos os professores, meu reconhecimento e meu carinho. Que possamos continuar construindo experiências, estimulando a curiosidade e transformando vidas por meio da educação.

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