Uma pesquisa iniciada em 2013, no Laboratório de Cerâmica Técnica (CerTec), da Unesc, vem consolidando avanço significativo na área da proteção balística. A Placa Balística Multicamada, desenvolvid...
Publicado por: Marciano Bortolin
em 19 de outubro de 2025
Tempo de leitura: 6 minutos.
Uma pesquisa iniciada em 2013, no Laboratório de Cerâmica Técnica (CerTec), da Unesc, vem consolidando avanço significativo na área da proteção balística. A Placa Balística Multicamada, desenvolvida sob a coordenação do pesquisador Oscar Rubem Klegues Montedo, reúne inovação, ciência aplicada e potencial estratégico para o Brasil. O estudo, que começou em parceria com as universidades federais de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, nasceu de um projeto da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), voltado ao desenvolvimento de materiais para defesa e segurança.
Ao longo dos anos, o grupo de pesquisa da Unesc orienta trabalhos de Mestrado e Doutorado dedicados ao tema. O resultado mais recente, que originou uma patente registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e publicada em revista internacional, propõe uma placa multicamada composta por diferentes materiais poliméricos e sintéticos, com desempenho comparável a produtos de ponta como o Kevlar, porém com custo reduzido e tecnologia nacional.
“Projetos dessa natureza têm grande importância porque, em todo o mundo, as munições evoluem constantemente, e isso exige tecnologias de proteção cada vez mais avançadas. À primeira vista, o material parece simples, mas fatores como o tipo de fibra, a configuração e o processo de montagem fazem toda a diferença. É isso que dá ao compósito uma característica única”, explica Montedo.
De modo geral, os sistemas de blindagem multicamadas (MAS) são compostos por uma camada frontal de material cerâmico duro e frágil, de alta resistência à compressão e baixa densidade, cuja função é destruir e quebrar a ponta do projétil, absorvendo a maior parte da energia cinética. Na segunda camada, os materiais compósitos absorvem a energia remanescente dos fragmentos e do projétil por meio de diversos mecanismos, como tração, deformação e deslocamento das fibras, etapa fundamental para dissipar a energia residual do impacto.
Materiais poliméricos têm se mostrado especialmente promissores para esse tipo de aplicação, por apresentarem baixa densidade e alta capacidade de dissipar energia balística. Nessas estruturas, é comum o uso de compósitos à base de fibras, como aramidas (Kevlar e Twaron), polietileno de ultra-alto peso molecular (UHMWPE), como Spectra e Dyneema, além das fibras PIPD (M5) e compósitos de fibra de vidro. Também há crescente interesse em fibras naturais, como juta, sisal, coco e abacaxi, empregadas como reforço em matrizes poliméricas, menos resistentes que as sintéticas, porém mais sustentáveis e economicamente acessíveis.
Foi nesse contexto que os pesquisadores desenvolveram a Placa Balística Multicamada com uma configuração inédita, ao combinar fitas sintéticas de poliéster, poliamida e polietileno de ultra-alto peso molecular (UHMWPE) com resina polimérica. “Buscamos uma alternativa acessível e nacional, com a utilização de materiais simples, de mercado, mas com uma configuração inovadora. Sozinhas, essas fitas não suportam o impacto de um projétil, mas, em conjunto e com a disposição adequada, formam um compósito com propriedades mecânicas superiores”, explica.
O material passou por testes rigorosos no Centro de Pesquisa do Exército, no Rio de Janeiro, em ambiente controlado e com medições de velocidade a laser. “Os resultados foram expressivos. Em alguns casos, o projétil padrão não atravessou o material, o que surpreendeu nossos colegas do Instituto Militar do Exército (IME). Mesmo com disparos de fuzil, que possuem energia muito superior, as placas mostraram altíssima capacidade de absorção de impacto, o que representa grande potencial de proteção”, relata Montedo.
“Buscamos uma alternativa acessível, que aproveita fitas sintéticas comercializadas no mercado, como as de poliéster, poliamida e polietileno de ultra alto peso molecular (UHMWPE). Sozinhas, essas fitas não resistem ao impacto de um projétil, mas a combinação e a configuração entre camadas criam um compósito com propriedades mecânicas muito superiores”, acrescenta o pesquisador.
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Além da blindagem pessoal, o material apresenta versatilidade para outras aplicações, como capacetes, equipamentos esportivos e proteções estruturais. “É um compósito leve, resistente e de múltiplos usos. A ideia agora é buscar parcerias para viabilizar a produção e comercialização da tecnologia”, antecipa.
A reitora em exercício da Unesc, Gisele Silveira Coelho Lopes, reforça o papel da Universidade como protagonista em ciência e desenvolvimento regional. “A Unesc tem no seu DNA o compromisso com a Pesquisa e a inovação voltadas à sociedade. Trabalhos como este demonstram que o conhecimento produzido aqui tem impacto real, com potencial de transformar setores estratégicos do país. A pesquisa nasce do investimento constante em estrutura, qualificação e incentivo aos nossos pesquisadores e estudantes. Esse resultado é fruto de uma política institucional que entende a ciência como ferramenta de desenvolvimento humano, econômico e social”, afirma.
A Placa Balística Multicamada, que representa mais de dez anos de estudo e aprimoramento tecnológico, é finalista do Prêmio Inovação Catarinense Professor Caspar Erich Stemmer – Edição 2025, na categoria Pesquisador Inovador, promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc).
Para Montedo, o projeto é também a prova da força da pesquisa desenvolvida na Unesc. “A Universidade tem se destacado por investir em ciência aplicada e inovação, com apoio constante aos Programas de Pós-graduação. Quando uma proposta como essa é reconhecida, o mérito é coletivo: do pesquisador, da equipe e da instituição que nos dá suporte. É motivo de grande satisfação ver um trabalho assim concorrer a um prêmio de relevância estadual”, destaca.
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