Déficit de voluntários leva prefeitura e Judiciário a ampliar busca por interessados
Publicado por: AgeCom Unesc
em 30 de outubro de 2026
Tempo de leitura: 6 minutos.
O Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora de Criciúma (SC) completou um ano de funcionamento em julho diante de um severo déficit de participantes. O programa, que começou a operar em 17 de julho de 2025, conta com uma lista drástica de voluntários para atender os menores afastados de suas famílias de origem por decisão judicial.
"Há hoje mais crianças precisando de acolhimento do que famílias disponíveis para recebê-las", afirma a coordenadora do serviço, Fernanda Costa Teixeira.
Enquanto o município abriga mais de 229 mil habitantes e movimenta uma complexa rede de proteção social, a conta da solidariedade institucionalizada fecha em um número baixo. Apenas quatro núcleos familiares abrem suas portas atualmente, sendo responsáveis pelo cuidado de cinco crianças. O cenário revela um paradoxo urbano em uma cidade de grande porte no Sul catarinense que opera o cuidado individualizado com o apoio de pouquíssimos cidadãos, deixando dezenas de outros menores dependentes de vagas em abrigos.
O déficit de voluntários contrasta com o tamanho da rede de abrigos que o município mantém para atender à mesma demanda. Segundo dados do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) de abril de 2025, Criciúma teve ao menos mais 69 vagas distribuídas em quatro abrigos, número ampliado após decisão liminar da Vara da Infância e Juventude da comarca.
Diante da escassez de famílias, a Prefeitura de Criciúma lançou em fevereiro, em parceria com o município de Treviso, uma mobilização conjunta para ampliar o número de voluntários no sul do Estado. O problema não é exclusivo da cidade. Em Tubarão, distante cerca de 40 km, o programa tem apenas nove famílias cadastradas, segundo profissionais da assistência social ouvidos pela Rádio Cidade Tubarão em 23 de julho.
"A maior dificuldade do serviço é fazer as pessoas entenderem a transitoriedade do acolhimento. Muitos hesitam por medo do apego e da separação. No entanto, a única certeza é que a criança sairá da família acolhedora, seja para retornar à família de origem, ir para parentes extensos ou, em última instância, seguir para a adoção”, contou a psicóloga e coordenadora do Serviço de Família Acolhedora no município de Tubarão, Tatiane Martins.
As crianças encaminhadas ao programa em Criciúma têm, em geral, entre 3 e 7 anos. Os encaminhamentos ocorrem em casos de negligência grave e violência física, psicológica ou sexual, quando há risco à integridade da criança e outras medidas de proteção já se mostraram insuficientes.
Antes da chegada à nova casa, uma equipe técnica prepara a criança, explicando, de acordo com sua idade, o que é o acolhimento familiar e o caráter temporário da medida. Após a colocação, a equipe mantém atendimentos e visitas domiciliares e articula, quando necessário, o acompanhamento pela Unidade Básica de Saúde (UBS) ou pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps), tanto para as crianças quanto para as famílias acolhedoras.
Um casal cadastrado no programa, que falou sob anonimato para preservar o sigilo das crianças atendidas, relatou à reportagem a decisão de se tornar família acolhedora.
"O amor por ajudar o próximo fez com que eu e meu esposo decidíssemos ser uma família acolhedora. Vamos ao encontro deles com o intuito de acolher e de aprender. No fundo, são eles que nos acolhem e preenchem o nosso coração. Buscamos essas crianças para ajudar, mas somos ajudados em todos os sentidos", afirmou.
Critérios de seleção
Para se candidatar, é necessário ter mais de 21 anos, residir no município, comprovar estabilidade emocional e financeira, ter disponibilidade de tempo e não estar inscrito no Cadastro Nacional de Adoção. O núcleo familiar não pode ter histórico de violência, dependência química ou antecedentes criminais, e todos os moradores maiores de 18 anos da residência precisam concordar com a participação.
O processo de seleção inclui análise documental, entrevistas psicossociais, visita domiciliar e capacitação obrigatória. Segundo a coordenação do programa, esse conjunto de exigências está entre os fatores que dificultam a adesão de novas famílias, ao lado do desconhecimento sobre o funcionamento do serviço e da resistência de parte da população à ideia de acolher uma criança sabendo que a convivência é temporária.
“Toda criança e adolescente merece ter um lugar onde se sinta protegido e amado. O acolhimento familiar representa exatamente essa oportunidade. Embora não apague as marcas do passado, o amor recebido no presente pode ressignificar experiências, restaurar a confiança, fortalecer a autoestima e mostrar que existem adultos dispostos a acolher e ajudar a construir novas possibilidades para o futuro. Cada família acolhedora planta uma semente de esperança que pode acompanhar eles por toda a vida”, declara a coordenadora do serviço de Criciúma, Fernanda Costa Teixeira.
Como se candidatar
As inscrições, em Criciúma, podem ser feitas presencialmente na Rua São José, no Centro de Criciúma, em anexo ao Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), ou pelo telefone (48) 99693-3265.
Texto: Marcela Vitoria Barrozo da Costa
Tags:
Copyright 2026 © UNESC. All rights reserved. | Privacy Policy